O Self Moderno à Luz da Teologia Bíblica: Uma Análise do Capítulo 1 de Trueman

Introdução

Carl Trueman, em "Ascensão e Triunfo do Self Moderno", oferece uma análise penetrante sobre a transformação radical da compreensão de identidade humana no Ocidente. O primeiro capítulo, "Reimaginando o Self", estabelece ferramentas conceituais essenciais para entendermos como chegamos ao momento cultural presente, onde afirmações como "sou uma mulher presa num corpo de homem" passaram a fazer sentido pleno. Este artigo examina as categorias de Trueman através de um referencial teológico bíblico, dialogando com pensadores cristãos que nos ajudam a discernir os fundamentos e implicações dessa revolução antropológica.

Mimese versus Poiese: A Questão da Ordem Criacional

Trueman, apropriando-se de Charles Taylor, distingue entre uma visão mimética e poiética da realidade. A mimese pressupõe um mundo com ordem e significado intrínsecos, aos quais os seres humanos devem se conformar. A poiese, por outro lado, vê o mundo como matéria-prima neutra da qual o indivíduo cria significado segundo sua vontade autônoma.

Esta distinção encontra paralelo direto na doutrina bíblica da criação. Em Gênesis 1-2, Deus estabelece uma ordem criacional que precede e transcende a vontade humana. Como observa Herman Bavinck em sua "Dogmática Reformada", a criação não é caótica ou neutra, mas possui uma estrutura ordenada por Deus: "Deus criou todas as coisas segundo sua espécie" (Gn 1:21, 24-25), estabelecendo distinções fundamentais que constituem a realidade. A humanidade é criada à imagem de Deus (Gn 1:26-27), não como autodeterminadora de sua própria essência, mas como portadora de uma identidade recebida.

O Salmo 100:3 afirma categoricamente: "Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio". A ordem das palavras é significativa: reconhecer que o Senhor é Deus precede o reconhecimento de que fomos feitos por Ele. Nossa identidade é fundamentalmente receptiva, não autocriada. Como Francis Schaeffer enfatizou em "O Deus que Intervém", a cosmovisão bíblica começa com a afirmação de que Deus estava lá no princípio, e que portanto a realidade possui estrutura objetiva anterior à consciência humana.

A visão poiética, em contraste, reflete o que Cornelius Van Til chamou de "princípio da autonomia" em sua apologética pressuposicional. O homem autônomo quer determinar por si mesmo o que é verdadeiro, bom e belo, rejeitando qualquer autoridade externa que limite sua autodeterminação. Isso não é meramente uma inovação moderna, mas o eco da tentação primordial: "sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal" (Gn 3:5). A serpente prometeu aos nossos primeiros pais que eles poderiam transcender sua condição de criaturas e se tornarem autodeterminadores da realidade moral.

O Indivíduo Expressivo e a Idolatria do Self Interior

Trueman identifica o surgimento do "indivíduo expressivo" como central para o self moderno. Nesta concepção, a autenticidade consiste em dar expressão externa aos sentimentos e desejos internos, independentemente de normas externas. A sexualidade torna-se particularmente central porque, seguindo Freud, passou a ser vista como aquilo que está no coração da identidade pessoal.

Esta ênfase no self interior como fonte última de verdade sobre quem somos contradiz diretamente o ensino bíblico sobre o coração humano. Jeremias 17:9 adverte: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?". A Escritura não apresenta o coração humano como fonte confiável de verdade sobre nós mesmos, mas como profundamente marcado pelo pecado e pela capacidade de auto-engano.

John Owen, o grande teólogo puritano, em sua obra "A Mortificação do Pecado", explorou extensivamente a natureza enganosa do coração caído. Owen argumentou que o pecado opera precisamente através do engano, fazendo com que nossos desejos internos pareçam legítimos e até mesmo imperativos morais. A cultura da autenticidade expressiva, portanto, pode facilmente tornar-se um mecanismo sofisticado para justificar e celebrar aquilo que a Escritura identifica como concupiscência.

O apóstolo Paulo, em Romanos 1:18-32, descreve uma progressão na qual a humanidade, rejeitando o conhecimento de Deus evidente na criação, "se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato" (v. 21). O resultado final dessa rejeição é que "Deus os entregou" (vv. 24, 26, 28) aos desejos de seus corações. Ironicamente, a busca por autonomia expressiva resulta não em libertação, mas em escravidão aos próprios desejos desordenados. Como Jesus afirmou em João 8:34: "todo o que comete pecado é escravo do pecado".

Timothy Keller, em "Deuses Falsos", observa que quando fazemos do self e de sua realização o objetivo último da vida, transformamos nossa própria identidade em ídolo. O ídolo do self interior exige sacrifícios constantes de outras pessoas que devem validar e afirmar nossa autopercepção, não importa quão desconectada da realidade ela seja. Esta é precisamente a dinâmica que vemos na exigência cultural contemporânea de que todos devem não apenas tolerar, mas ativamente celebrar e afirmar as autoidentificações de cada indivíduo.

A Negação da Natureza Dialógica: Individualismo versus Comunidade Cristã

Trueman, seguindo Taylor, reconhece que a identidade é fundamentalmente dialógica, formada em relacionamentos e através do reconhecimento dos outros. Paradoxalmente, porém, o individualismo expressivo moderno insiste que a autenticidade requer resistência às expectativas comunitárias sempre que estas conflitam com o senso interior de self.

A Escritura apresenta uma visão radicalmente diferente da formação da identidade. Em 1 Coríntios 12, Paulo descreve a igreja como corpo de Cristo, onde cada membro possui identidade e função determinadas não por autoexpressão individual, mas por sua relação com a cabeça (Cristo) e com os demais membros. "Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo" (v. 12).

Dietrich Bonhoeffer, em "Vida em Comunhão", articulou belamente como a identidade cristã é fundamentalmente corporativa. A comunidade cristã não é simplesmente uma coleção de indivíduos expressivos que se reúnem, mas uma realidade na qual nossa verdadeira identidade como filhos de Deus é descoberta e formada. Bonhoeffer escreveu que vivemos "através de Cristo uns para os outros", e que nossa recusa em aceitar a correção e formação da comunidade é, em última análise, recusa a aceitar Cristo.

Provérbios está repleto de ensinamentos sobre a necessidade de receber instrução, correção e sabedoria de fora de nós mesmos: "O caminho do insensato é reto aos seus próprios olhos, mas o que dá ouvidos ao conselho é sábio" (Pv 12:15). A sabedoria bíblica reconhece que precisamente porque nosso coração é enganoso, necessitamos da palavra externa de Deus e da comunidade de fé para nos formar adequadamente.

C.S. Lewis, em "O Peso da Glória", observou que o cristianismo nos promete não a realização do self que imaginamos ser, mas a transformação para nos tornarmos o que Deus sempre pretendeu que fôssemos. Esta transformação ocorre não através da expressão desinibida de nossos desejos interiores, mas através da crucificação do velho homem e da renovação pela Palavra (Rm 6:6; Ef 4:22-24).

As Três Ordens Culturais de Rieff e a Cosmovisão Cristã

Trueman utiliza a tipologia de Philip Rieff de três mundos culturais: culturas pagãs (primeiro mundo), culturas de fé cristã (segundo mundo), e culturas pós-cristãs focadas em autorrealização terapêutica (terceiro mundo). A transição do segundo para o terceiro mundo representa a perda do sagrado e do transcendente como fundamento da moralidade.

Esta análise ressoa com a crítica de Francis Schaeffer à secularização em "Como Viveremos?". Schaeffer argumentou que quando uma cultura abandona o Deus transcendente revelado nas Escrituras, ela não se torna neutra, mas necessariamente reduz o horizonte da significância ao imanente, ao material, ao mensurável. O resultado é uma cultura que, nas palavras de Rieff citadas por Trueman, preocupa-se apenas com "bem-estar" porque não há propósito maior que possa ser justificado de forma ultimamente autoritativa.

A Escritura insiste que a vida humana possui significado precisamente porque é vivida coram Deo, diante da face de Deus. Eclesiastes explora exaustivamente a futilidade de uma vida limitada ao "debaixo do sol" (expressão repetida 29 vezes no livro). A conclusão do pregador é clara: "De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más" (Ec 12:13-14).

Abraham Kuyper, em suas "Palestras sobre Calvinismo", argumentou que uma cosmovisão verdadeiramente cristã reconhece que "não há um centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: 'É meu!'". A cultura de terceiro mundo de Rieff, em contraste, insiste que não há tal autoridade transcendente, e que cada esfera da vida deve ser autônoma e autoconstruída.

Implicações para a Vida Cristã e Testemunho

A análise de Trueman não é meramente acadêmica, mas possui profundas implicações práticas para a igreja contemporânea. Como Herman Bavinck observou, toda doutrina possui um aspecto ético. O que cremos sobre a natureza do self determina como vivemos e como fazemos discipulado.

Primeiro, a igreja deve recuperar uma robusta teologia da criação. Em um mundo poiético, a igreja oferece a realidade mimética da ordem criacional. Isso significa ensinar não apenas sobre redenção, mas sobre o que significa ser humano desde o princípio. Como J.I. Packer enfatizou em "Vocábulos de Deus", a doutrina da criação não é um apêndice dispensável à fé cristã, mas o fundamento sobre o qual tudo o mais se constrói.

Segundo, devemos cultivar uma hermenêutica de suspeita quanto aos nossos próprios corações, enquanto nutrimos confiança na Palavra de Deus. Isso não significa neurose espiritual, mas o reconhecimento humilde de que "A lâmpada do SENHOR é o espírito do homem, a qual esquadrinha todo o mais íntimo do corpo" (Pv 20:27). Precisamos da luz externa da revelação divina para conhecer verdadeiramente nossos próprios corações.

Terceiro, a igreja deve modelar uma comunidade genuinamente dialógica onde a identidade é formada não através da afirmação incondicional de toda autopercepção, mas através da conformação mútua à imagem de Cristo. Como Paulo exorta em Efésios 4:15, devemos "seguir a verdade em amor", crescendo "em tudo naquele que é a cabeça, Cristo". Isto requer tanto verdade (disposição para confrontar erro) quanto amor (compromisso com o bem-estar do outro).

Quarto, devemos oferecer uma narrativa mais rica e convincente de florescimento humano do que a cultura terapêutica contemporânea. Jesus prometeu não meramente conforto psicológico, mas vida abundante (Jo 10:10). Esta vida não é encontrada através da expressão desinibida dos desejos do self caído, mas através da negação de si mesmo, do tomar a cruz diariamente, e do seguir a Cristo (Lc 9:23). Como D.A. Carson observou, a verdadeira liberdade cristã não é liberdade para fazer o que queremos, mas liberdade para nos tornarmos o que Deus pretendeu que fôssemos.

Conclusão

A análise de Trueman no primeiro capítulo de sua obra revela que a revolução do self moderno não é meramente uma mudança de preferências culturais, mas uma transformação fundamental na antropologia ocidental. A transição de uma visão mimética para poiética da realidade, a elevação do self expressivo como ideal de autenticidade, e a perda do sagrado transcendente representam uma rejeição da cosmovisão bíblica em seus fundamentos mais básicos.

A resposta cristã não pode ser simplesmente reacionária ou nostalgia por uma "idade de ouro" cultural que nunca existiu. Antes, deve ser a articulação fiel e winsomeness da visão bíblica de humanidade: criaturas feitas à imagem de Deus, caídas no pecado e no auto-engano, mas redimíveis através de Cristo e chamadas a uma identidade que transcende tanto o determinismo biológico quanto a autocriação autônoma.

Como Agostinho orou em suas "Confissões": "Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração enquanto não repousa em ti". O self moderno busca repouso em si mesmo, mas encontra apenas a tirania de desejos insaciáveis. A igreja oferece o verdadeiro descanso encontrado não na autorrealização, mas na negação de si mesmo e no encontro com Aquele em quem "vivemos, e nos movemos, e existimos" (At 17:28).

Em última análise, a questão não é simplesmente "quem sou eu?", mas "de quem sou eu?". A resposta bíblica é clara: somos de Cristo, comprados por seu sangue (1Co 6:19-20), e nossa verdadeira identidade é descoberta não através da escavação psicológica do self interior, mas através da união com Cristo e da conformação à sua imagem pela obra do Espírito Santo na comunidade da fé.


Referências Bibliográficas

Escritura Sagrada

  • A Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Obras Teológicas

 

  • AGOSTINHO. Confissões
  • BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada
  • BONHOEFFER, Dietrich. Vida em Comunhão
  • CARSON, D.A. The Intolerance of Tolerance
  • KELLER, Timothy. Deuses Falsos: O Vazio da Riqueza, do Prazer e do Poder e a Única Esperança que Realmente Importa
  • KUYPER, Abraham. Palestras sobre Calvinismo
  • LEWIS, C.S. O Peso da Glória
  • OWEN, John. A Mortificação do Pecado
  • PACKER, J.I. Vocábulos de Deus
  • SCHAEFFER, Francis. O Deus que Intervém; Como Viveremos?
  • TRUEMAN, Carl R. Ascensão e Triunfo do Self Moderno
  • VAN TIL, Cornelius. A Defense of the Faith